Há pouco tempo, um escalador me escreveu:
"Minha motivação para treinar sobe e desce. Minha escalada também, e isso me estressa muito quando não evoluo ou não consigo passar de um grau. Como lidar com tudo isso?"
Fiquei alguns dias pensando nessa pergunta.
Comecei a escrever a resposta e percebi que eu mesmo pulo esse assunto de vez em quando. Com as pessoas que treino e no meu próprio treino. Acho que a maioria dos escaladores também pula. Falamos muito de séries, suspensões e graus, e quase nunca de motivação para escalar.
Mas o motivo de os resultados não crescerem nem sempre está no plano de treino, na técnica ou no número de tentativas. Às vezes ele está mais fundo. Dentro da pessoa.
Por que a motivação importa mais do que parece
Todo mundo fala de disciplina e de constância. As duas são importantes. Mas, pela minha experiência, disciplina sem motivação não funciona de verdade.
A motivação te dá dopamina para agir. E dopamina não é só prazer. É ela que faz você querer alguma coisa e ter disposição para se esforçar por isso. Quando a motivação está baixa, fisicamente você ainda consegue fazer o mesmo trabalho. Mas fica muito mais difícil se obrigar a fazer. Você falta a uma sessão, termina mais cedo ou escala só o que é confortável.
Se você não consegue se obrigar a treinar, isso não quer dizer que é preguiça. Seu cérebro só parou de enxergar o esforço como algo que vale a pena. E dá para trabalhar isso, do mesmo jeito que você treina os dedos ou o trabalho de pés.
O que acontece no treino sem motivação
Quando você chega ao treino sem motivação, a sessão vira só movimento. Você foi lá, escalou. Mas as tentativas difíceis, as que de fato deixam você mais forte, não aconteceram. Ou aconteceram pela metade.
O corpo se adapta à carga, não ao fato de você ter ido à academia de escalada (ginásio, em Portugal). Sem estresse suficiente, o corpo não tem motivo para mudar. É por isso que platô e motivação baixa andam tantas vezes juntos.
Na técnica, isso fica ainda mais claro. Aprender um movimento é trabalho do cérebro, e o cérebro muda quando você está realmente focado no que faz. De fora, escalar no piloto automático e escalar com atenção total parecem iguais. Para o seu sistema nervoso, são dois treinos diferentes. Então trabalhar a motivação também faz parte do treino.
Motivação interna
Para mim, a motivação se divide em interna e externa. A interna é a sensação que o próprio treino dá. A externa é o que faz você ir treinar mesmo quando não está com vontade.
No meu caso, nem existe a dúvida se vou treinar ou não. Eu vou. Porque o treino me dá energia. Quando escalo, me sinto saudável, a cabeça fica limpa, o humor melhora e a confiança também. E conheço muito bem o contrário: assim que paro de treinar, a energia cai, a confiança some e eu me sinto quebrado.
E essa energia afeta tudo. A qualidade do meu trabalho, o jeito como falo com as pessoas, o que consigo dar aos outros. Não acredito que dê para trabalhar bem e continuar evoluindo sem essa energia interna. Para mim, é uma das principais condições de crescimento. Por isso o esporte está sempre na minha vida, esteja eu evoluindo agora ou não.
Cada pessoa tem as suas fontes de energia. Para mim, uma delas é escalar. A questão é achar as suas.
Motivação externa
Mas, para ser honesto, a motivação interna nem sempre basta para avançar de verdade. Ela basta para você não sumir. Para avançar, você precisa de estímulos externos. E eles são diferentes para cada um: para alguns é resultado, para outros é saúde, para outros uma viagem. Estes são os meus.
Competições. Quase ninguém gosta de perder. Está meio embutido em nós. Então, quando você vai competir, quer mostrar o seu melhor. E só isso já faz você seguir o plano, manter a disciplina e não faltar às sessões.
As pessoas com quem você escala. Elas definem muito o seu teto. Se ninguém no grupo escala mais forte do que você, a motivação costuma cair. Você já está no topo, e o cérebro pergunta: para que treinar mais se já estamos tão bem? Não é assim para todo mundo, mas acontece muito. A boa notícia é que dá para mudar isso. Procure gente que escala mais forte do que você, escale com essas pessoas e observe como elas se movem.
Viagens para a rocha. Eu moro longe da rocha e não vou tanto quanto gostaria. Então, quando uma viagem está chegando, quero mostrar meu melhor lá, e a motivação para me preparar no treino cresce sozinha. Um objetivo com data funciona muito melhor do que um objetivo "para algum dia".
Por que a minha escalada sobe e desce?
Agora, sobre os resultados que sobem e descem. Isso é normal. É por isso que existe periodização no esporte: ela ajuda a gerenciar a forma, porque ninguém consegue mostrar o resultado máximo o tempo todo.
E muita coisa afeta como você escala num dia específico. Dormiu mal, está no vermelho. Não se recuperou, no vermelho. Comeu mal, sem energia. Sem objetivos, a motivação caiu, e não há dopamina para entregar resultado.
Às vezes você chega ao treino depois de um dia pesado de trabalho, aquece, escala um pouco e sente. O plano pede uma sessão pesada, mas o seu estado é completamente outro. Você não consegue entrar no ritmo. Se mesmo assim tentar forçar o plano, só se afunda mais no vermelho. Nessas situações eu simplesmente aceito: hoje é um desses dias. Vou à próxima sessão e faço o trabalho lá.
A queda de motivação também pode ser um sinal precoce de que você não está se recuperando bem. Muitas vezes ela aparece antes de a escalada piorar. Então, antes de se culpar, confira o seu sono e a sua recuperação.
Não se julgue por um dia ruim. Uma sessão ruim não quer dizer que você está andando para trás. Olhe como as coisas mudam ao longo das semanas.
Estou perdendo a motivação porque não evoluo. O que fazer?
Quando o progresso para, é muito importante reparar nas pequenas vitórias. Existe o ponto A e existe o ponto B. Muitas vezes o ponto B é um objetivo grande, como o próximo grau. Se você passa muito tempo sem chegar lá, é fácil perder a motivação: parece que nada muda.
Sobre os motivos físicos de o progresso parar, escrevi num artigo à parte sobre o platô no boulder. Aqui quero falar do que fazer com a cabeça enquanto você trabalha para sair dele.
Mas, se você divide o caminho em etapas, ele parece diferente. Por exemplo, eu quero encadenar (encadear, em Portugal) uma via específica. Para isso preciso puxar mais forte, manter o core firme, fazer um movimento difícil. Ao ar livre ainda pode haver medo de altura. Cada uma dessas coisas dá para trabalhar separadamente. E dá para medir:
- Uma barra (elevação, em Portugal) a mais do que no mês passado.
- Um segundo a mais na suspensão.
- Uma costura a mais antes de o medo aparecer.
Isso não te leva um grau acima na hora. Mas são marcadores de que você continua avançando. E, quando você melhora as partes, em algum momento elas se juntam na via.
Progresso e regresso
E tenha sempre em mente: existe progresso e existe regresso. Se não fazemos nada, andamos para trás. Até para manter o que temos precisamos fazer alguma coisa. E, se queremos avançar, precisamos fazer o dobro.
E você? O que te leva ao treino nos dias em que você não quer ir?
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